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Animais Fantásticos Entre Crises

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O ano é 1927 e Newt Scamander está de volta à Londres. Agora é o momento de resolver seus problemas com o Ministério da Magia e, em especial, com seu irmão Teseu, que está para se casar com Leta Lestrange, antigo amor de Newt. Do outro lado do Atlântico, Gellert Grindelwald foge do Congresso Mágico dos Estados Unidos da América em direção à Paris. Situados os personagens, o desenvolvimento de Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald acontece na capital francesa e é centrado na busca por Credence Barebone e de seu passado sombrio.

Em termos de visual o mundo mágico iniciado com Harry Potter ganha cada vez mais coesão, inclusive em relação aos filmes da saga anterior. O design de produção do velho conhecido Stuart Craig impressiona, principalmente em relação ao visual dos novos “animais fantásticos” – ainda que estes estejam em número inferior ao filme anterior. Já as roupas da sempre excelente Colleen Atwood dão um show ao indicarem a condição social, a profissão ou até mesmo a inclinação ideológica dos personagens. Vale a pena, nesse sentido, prestar especial atenção à Leta Lestrange e Queenie Goldstein.

Quanto aos atores, Eddie Redmayne, Katherine Waterston e Alison Sudol seguem muito bem repetindo com delicadeza seus papéis do primeiro filme. Mas os grandes destaques do filme são Ezra Miller, que ganha espaço em sua interpretação como Credence, Dan Flogler repetindo a graça do filme anterior e Jude Law, inaugurando sua participação como Dumbledore e roubando toda cena em que aparece. E fazendo jus ao trabalho de Michael Gambon! Já os destaques negativos ficam por conta de Johnny Depp como Grindelwald, sempre no automático, e Claudia Kim como Nagini, que desaparece em seus – poucos – momentos de tela.

Entretanto, os problemas reais começam quando se trata de roteiro e direção. Escrito por J.K. Rowling – que, lembramos, é, por excelência, autora e não roteirista –, Os Crimes de Grindelwald é um filme intermediário, em todos os sentidos na palavra. Ainda que tenha cenas muito inspiradas e bons diálogos, o filme, em geral, não avança a história e desenvolve muito pouco seus personagens. Ora, há uma infinidade de novos rostos (Leta, Teseu, Dumbledore, Nagini e Nicolau Flameu são alguns exemplos – e é lamentável que esse último apareça apenas como um gracejo para os fãs dos livros) que geram uma infinidade de subtramas que não desenvolvidas. Ao mesmo tempo, o filme não entrega o que promete ao negar seu próprio título: quais são, afinal de contas, os crimes de Grindelwald? Nessa altura o leitor pode argumentar que ainda há pelo menos três filmes pela frente, mas é importante lembrar que um filme, ainda que faça parte de uma série, cada obra solada deve ter uma trama que se sustente por si só, impulsionando e instigando o espectador para os próximos filmes. Na fatura final, os personagens avançam muito pouco, principalmente Newt e Grindelwald, os protagonistas por excelência.

Já falando da direção, David Yates entrega um filme no piloto automático, com as cenas principais nada inspiradas – vide a pavorosa sequência de abertura. Mas, convenhamos, Yates nunca foi um exemplo de primor, dando-nos sempre filmes pouco instigantes e algumas vezes medianos, talvez com a exceção de Relíquias da Morte – Parte 1, que trouxe frescor à série. O novo Animais Fantásticos mostra que por trás da coesão visual proposta ao longo dos últimos seis filmes se esconde uma estrutura fraca que depende de cenas isoladas e vazias de conteúdo para sustentar a obra.

Vale destacar que, ainda que se passe em 1927, Os Crimes de Grindelwald é filho de seu tempo. O vilão e seus seguidores podem ser entendidos como uma alegoria dos atuais movimentos que se desenvolvem mundo a fora – inclusive no Brasil – de ideais pouco democráticos. Grindelwald é construído como um líder de massas, de fala simples, que convence no discurso do “nós contra eles”, a partir de palavras-chaves como “liberdade” e “diferença”. Nesse sentido, o vilão é visto como a salvação do mundo bruxo e é até injusto, neste primeiro momento, julgar aqueles personagens – inclusive alguns já queridos do público – que o seguem.

Por outro lado, o paralelo mais óbvio do núcleo “malévolo” do filme é com a ascensão dos fascismos na Europa na década de 1920 – Mussolini sobe ao poder na Itália em 1925 e Hitler funda seu Partido Nazista ainda nessa década – e o clima de tensão pré-Segunda Guerra Mundial, tema muito bem explorado em uma bela sequência já no clímax do filme. Nesse sentido, o desenvolvimento da tal guerra contra o mundo trouxa pregada por Grindelwald parece promissora para os próximos filmes e a relação com os acontecimentos históricos das décadas de 1920 e 1930.

O filme de J.K. Rowling termina com uma grande revelação que provavelmente irá desagradar os fãs dos livros – e me incluo aqui – e desconstruir parte do que já conhecemos. Entretanto, a revelação parece um aviso da própria autora: o mundo de Harry Potter está acabado e este é um novo mundo que independe daquele visto nos livros. Agora caracterizado pela marca Wizarding World, cujo logo abre o filme, essa expansão dos conceitos que já conhecemos precisa ser entendido e apreciado por sua lógica própria, o que não deveria diminuir, de maneira alguma, a força da criação de Rowling. Claro, se bem executado, o que não é o caso de Crimes de Grindelwald ou mesmo de Harry Potter e a Criança Amaldiçoada, outro exemplo recente dessa nova leva de produções.

Animais Fantásticos, por enquanto, tem se portado como sinônimo de crise: do mundo bruxo, do mundo real, da produção dos filmes e porquê não, pode expressar a crise dos próprios fãs.



Categoria Filmes